A velha e a nova Alemanha se encontram nos 30 anos da queda do Muro de Berlim

Quando a queda do Muro de Berlim completou 14 anos, fiz uma viagem por vários pontos da Alemanha a convite do Instituto Goethe, uma instituição sem fins lucrativos que divulga ao mundo a cultura e os valores alemães.

Além dos textos que produzi para o “Correio Braziliense”, jornal em que trabalhava à época, aproveitei para fazer um ensaio fotográfico em mais de dez cidades daquele país.

No ano seguinte, a embaixada da Alemanha organizou uma exposição com as fotos em Brasília.

Para o embaixador alemão no Brasil em 2004, ano em que a queda do muro completou 15 anos, “as fotos quebraram estereótipos sobre os alemães”.

Exagero do diplomata. Mas o resultado mostrou, sim, a cara de uma Alemanha que superava velhas divisões raciais, aceitava o imigrante e, na mais importante de todas as conquistas, apostava na diversidade.

Neste sábado (9), após 30 anos de uma data memorável em que o povo alemão se reconciliou e o mundo encerrou o triste período da Guerra Fria, novas sombras assustam o mundo e a Alemanha.

A intolerância tem voltado a crescer no paÍs europeu, com movimentos neonazistas, e o partido mais à direta, o AfD (Alternativa para a Alemanha), conquistando cadeiras nas eleições regionais e no parlamento.

O que isso significa? Conversei com o jornalista Marian Blasberg, correspondente da revista alemã “Der Spiegel”, sobre o assunto.

“O que ouço das pessoas na Alemanha é que tudo está muito preocupante. Não sei se você leu, mas recentemente houve ataques em sinagogas, atentados a políticos como um prefeito. A extrema direita está ganhando força de 2015 para cá, com discursos contra imigrantes”, afirma Marian Blasberg.

Homem toca acordeon em uma rua de Dresden, na ex-Alemanha Oriental — Foto: Matheus LeitãoHomem toca acordeon em uma rua de Dresden, na ex-Alemanha Oriental — Foto: Matheus Leitão

Homem toca acordeon em uma rua de Dresden, na ex-Alemanha Oriental — Foto: Matheus Leitão

O partido AfD tem buscado aproveitar a ira dos eleitores sobre refugiados e os planos para o fechamento na indústria, como as minas de carvão nos antigos estados comunistas, colocando-se como herdeiro dos manifestantes que provocaram a queda do Muro de Berlim três décadas atrás.

Como explicou o cientista político Sérgio Abranches em artigo publicado neste blog, as pesquisas revelam o crescimento da ameaça populista, sob a égide da ultradireita nacionalista e anti-imigração, indicando inclusive que a AfD pode continuar a crescer no Bundestag, o parlamento alemão.

O programa do Instituto Goethe do qual participei em 2003 tinha uma agenda extenuante, incluindo visitas à sede do governo e à Bundestag, mas passando por incursões em ministérios, locais de turismo histórico, como a cidades de Weimar, berço da república alemã, e até a passagem por antigos campos de concentração.

A ideia era justamente combater a imagem da Alemanha dividida e xenófoba, e as marcas do nazismo e do holocausto no país europeu perante o mundo. Em todo o tempo, o programa do Goethe ensinava que a Alemanha havia evoluído, e que o horror daquele passado havia sido superado.

Os orientadores reforçavam, contudo, que o nazismo na Alemanha não poderia ser esquecido. Deveria ser lembrado para que a história, da qual tinham vergonha, não encontrasse terreno fértil para renascer.

Na visita ao campo de concentração, Maia, uma alemã filha de imigrantes que nos acompanhou por 30 dias, guiou doze jornalistas brasileiros por pontos de execuções dos judeus, como uma câmara de gás e até um macabro consultório médico.

Havia um buraco quase imperceptível na parede atrás de uma balança onde o “médico” pesava os “pacientes”. Maia contou que, enquanto judeus pensavam que estavam em uma “consulta” no campo de concentração, um militar nazista disparava tiros pelo buraco. O preso, assim, era assassinado enquanto “se pesava”.

Maia contou em detalhes o funcionamento do consultório e, ao final, se emocionou. Nesse momento, ela pediu desculpas para nós, os jornalistas brasileiros, pelos crimes do nazismo.

“Não importa se vocês são judeus ou não. Nosso pedido desculpas não é somente para os judeus, mas à toda a humanidade, por nossos crimes”, disse Maia.

A alemã filha de imigrante tinha cerca de 20 anos em 2003. Nem ela ou qualquer parente haviam participado do movimento nazista alemão, mas ela se sentia no dever de pedir desculpas em nome do país que amava.

Era, na verdade, a cara da nova Alemanha, incentivada pelo instituto Goethe, pedindo perdão pelos erros da velha Alemanha.

Nos 30 anos da queda do Muro de Berlim, comemorado hoje não só na Alemanha, mas pelo mundo, o novo e o velho parecem voltar a se encontrar face a face no país europeu.

Imagem do Viktoriapark, em Berlim — Foto: Matheus LeitãoImagem do Viktoriapark, em Berlim — Foto: Matheus Leitão

Imagem do Viktoriapark, em Berlim — Foto: Matheus Leitão