“Acontece situações que não são desaparecimento”, diz delegado sobre sumiços no Maranhão

Walter Marlino Santos Pereira tinha 49 anos quando sumiu na cidade de São José de Ribamar, Região Metropolitana de São Luís. Segundo a família, ele estava desorientado pela falta de medicamentos antidepressivos, e, também, por sofrer de síndrome do pânico. Walter, que era guarda municipal de São Luís e estava afastado do serviço por causa dos problemas de saúde, desapareceu no dia 11 de fevereiro de 2016 e nunca foi encontrado.

“Nós colocamos cartazes em vários lugares de São Luís, Paço do Lumiar, Raposa e Ribamar, fomos em quase todas as delegacias de São Luís. Mas até hoje não me deram retorno. Vai fazer quatro anos que ele sumiu, mas a gente ainda tem esperança de ele ser encontrado. Nos últimos tempos eu até parei mais de procurar, porque é uma angústia muito grande procurar, procurar e não achar a pessoa. Eu estava entrando em depressão de tanta cobrança que eu estava fazendo por não conseguir resolver o desaparecimento dele”, relata Joyce Rocha Pereira, 29 anos, filha de Walter, em entrevista ao G1 MA.

Joyce Rocha conta, ainda, que a maior angústia da família é não ter qualquer informação sobre o paradeiro de Walter, além da sensação de que a polícia não está fazendo o seu dever.

“Eu sempre acompanhei o caso do sumiço do meu pai e não senti, por parte do Estado, um apoio. Até hoje não sinto, na verdade, quando eu quero qualquer informação eu vou atrás. A polícia nunca nos deu um retorno sobre uma investigação”, desabafa Joyce Rocha.

Walter Marlino é uma das 23 pessoas que estão desaparecidas no Maranhão, segundo divulgação do Disque Denúncia, no site da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Maranhão (SSP-MA). Os desaparecimentos aconteceram entre os anos de 2015 e 2019, sendo que, entre as vítimas, cinco eram menores de idade na época do sumiço.

Os casos de desaparecimento cresceram nos últimos anos no Maranhão. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em setembro de 2019, em 2017 foram registrados 756 casos de desaparecimento no Estado. Já em 2018, o número aumentou para 934.

Em entrevista ao G1 MA, o delegado Felipe César Mendonça, da Superintendência de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP), falou sobre a questão de desaparecimento, abordando de que forma a polícia trabalha para localizar a vítima, como e onde fazer a denúncia, além de destacar que, a maioria dos casos denunciados não são de pessoas que, de fato, desapareceram.

Delegado Felipe César Mendonça, da Superintendência de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP) no Maranhão. — Foto: Alessandra Rodrigues/Mirante AM.Delegado Felipe César Mendonça, da Superintendência de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP) no Maranhão. — Foto: Alessandra Rodrigues/Mirante AM.

Delegado Felipe César Mendonça, da Superintendência de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP) no Maranhão. — Foto: Alessandra Rodrigues/Mirante AM.

Leia a entrevista na íntegra:

G1 MA: Delegado, tem um prazo específico para que a família comunique às autoridades policiais o desaparecimento de um parente?

Delegado Felipe César: Não existe prazo estipulado para comunicar um desaparecimento, vai muito pela análise do que aconteceu, como foi esse desaparecimento, para que a gente possa vir a tomar conhecimento e exercer algum tipo de reação. Fazer diligência para que a gente possa tentar localizar esse desaparecido.

Claro que há situações em que a gente precisa ter mais cuidado, como em casos de idosos, crianças, pessoas com problemas mentais, mulheres, os grupos vulneráveis. Nesses casos, a gente sempre pede que a família comunique o mais rápido possível, pois são situações mais delicadas.

E acontecem situações que não são desaparecimento, a pessoa saiu de casa levando uma mala, porque simplesmente não queria mais morar naquele lugar. Isso não é desaparecimento, pois a pessoa maior de idade tem direito de ir e vir. A polícia não pode agir obrigando aquela pessoa que retorne à sua residência. Nesses casos, não temos o que fazer, quando a pessoa, por livre espontânea vontade, decide sair de casa.

G1 MA: E qual é o procedimento da Polícia Civil do Maranhão para casos de desaparecimento?

Delegado Felipe César: A família vem, conversa pessoalmente comigo ou com a minha equipe, fazemos a triagem sobre o que está sendo relatado e as informações que vão surgindo eventualmente. Ao fazer essa triagem, nós analisamos o que podemos fazer para tentarmos, de imediato, localizar essa pessoa. Analisamos, geralmente, câmeras de segurança, celular (se a pessoa tiver), vamos vendo em redes sociais, para saber se existe alguma possibilidade de o desaparecido ter entrado em contato com alguma pessoa e possa ser essa pessoa a causa desse desaparecimento.

Então, vai depender muito da situação para que a gente inicie a diligência mais específica. Se ele sumiu no shopping, vamos em busca das câmeras de segurança para traçar todo o caminho até ele desaparecer. São situações assim que vamos sempre tentar ter o mínimo de cuidado para poder identificar o que, efetivamente, foi um desaparecimento ou não.

G1 MA: Em quais locais a família pode registrar o Boletim de Ocorrência, comunicando o desaparecimento?

Delegado Felipe César: Todas as delegacias podem ser acionadas em casos de desaparecimento. Essas delegacias registram o B.O e vão colher o primeiro depoimento, que é o depoimento do familiar que vai registrar o desaparecimento. Posteriormente, caso a pessoa não venha a aparecer, aí se encaminha ao Departamento de Proteção à Pessoa da SHPP. Aqui se faz uma análise mais minuciosa do caso e se toma as providências cabíveis. Mas o registro pode ser feito em qualquer delegacia, de preferência, em uma mais próxima da residência do desaparecido. Pois, a polícia local tem mais contato com a comunidade e pode ajudar a localizar a pessoa.

G1 MA: O senhor falou que há muitos casos de sumiço que não são, de fato, um desaparecimento. O que acontece nesses casos?

Delegado Felipe César: O que a gente observa é que, em 90% dos casos de desaparecidos, eles acabam voltando para casa sem ter tido qualquer tipo de situação que dê preocupação. É uma pessoa que resolveu sair para uma festa e acabou demorando mais para vir para casa, e esse caso é muito comum. Na segunda-feira é um dia que a gente recebe muito esse tipo de denúncia. Às vezes a pessoa recebeu um dinheiro, saiu para a festa e acabou ficando um pouquinho a mais e retorna na segunda à tarde ou terça de manhã. Ou ela vai se encontrar com uma pessoa e acaba não avisando a família. São pessoas que esqueceram de avisar a família sobre onde estariam ou pessoas que foram embora de um local, por não quererem mais morar ali.

Por isso, que a gente faz uma análise minuciosa antes de agir, antes de mobilizar toda uma estrutura policial para ir em busca desse ente. Temos que ter esse cuidado, pois é desgastante e acabamos usando um tempo e recurso que deveriam ser usados para outros fins. Sendo que, o Departamento de Proteção à Pessoa é, também, responsável pelos casos de latrocínio (roubo seguido de morte). E é um crime que exige todo um cuidado. Então, temos que ter certeza para agir, e a maioria não é, de fato, um desaparecimento.

Os casos que a gente pode vislumbrar algum tipo de crime é o que nos requer mais cuidado, no qual precisamos agir mais rapidamente para que a gente possa identificar. Este ano mesmo teve um caso de relevância que foi o do pastor Mackson. Quando a gente foi fazer uma análise, percebemos que havia acontecido algo de mais grave com ele. Infelizmente a gente já encontrou só o corpo sem vida, mas, pelo menos demos uma resposta para a família, entregamos o corpo para que pudesse ser enterrado, para que ela se despedisse.

G1 MA: Quem denuncia um sumiço e depois localiza o parente, tem que notificar a polícia sobre o aparecimento?

Delegado Felipe César: Tem situações em que a família estava há seis meses procurando o ente, e depois recebe a informação de que ele estava em São Paulo trabalhando e, simplesmente, não deu mais nenhuma notícia para os parentes. Acontece muito esse tipo de situação. Com o tempo, muitas vezes a família recebe as informações e nos auxilia. Por isso, eu sempre peço para qualquer pessoa que vem comunicar um desaparecimento, que se posteriormente localizar, volte à delegacia para que seja retirado do sistema. Porque no sistema fica constando, então, pode ser que a gente ainda esteja procurando, efetivamente, aquela pessoa, sendo que ela já foi localizada.