Fala de Guedes eleva câmbio e BC intervém; Congresso fecha acordo para votar 2ª instância em 2020

Os principais jornais do país destacam a disparada no dólar causada pela declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o brasileiro ter que “se acostumar com juros baixo e dólar mais alto”.

No maior momento de oscilação nesta terça-feira (26), a moeda americana chegou a registrar R$ 4,27 e fechou a cotação do dia a R$ 4,24 no dólar comercial – aumento de 0,61% -, o maior valor já registrado no Brasil. O dólar turismo fechou em R$ 4,43.

Mesmo após duas tentativas de intervenção do Banco Central, o mercado reagiu com a alta. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse que o comportamento do mercado foi “disfuncional”. Ele sinalizou que fará novas tentativas de intervenção para corrigir o que chama de “movimentos de curto prazo”.

Em sua reportagem principal, O Estado de S. Paulo lembra que a entrevista, em Washington, nos EUA, na qual Guedes disse que o país “deve se acostumar a conviver com um ambiente de juros baixos e dólar mais alto”, foi a senha para o mercado testar um novo patamar para o dólar. Isso ocorreu nos primeiros minutos de negociação do dia.

Segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, além de afetar diretamente os diversos perfis de consumidores que dependem diretamente dos resultados das negociações (como aqueles que vão viajar para os Estados Unidos), há ainda um outro efeito possível: a desaceleração do ciclo de redução dos juros básicos em 2020.

O economista José Francisco Lima Gonçalves, do Banco Fator, não vê cortes na Selic além de 4,5% – a taxa hoje é de 5% e o Copom ainda terá uma reunião em dezembro. “Alta do dólar traz incertezas sobre preços e corte de juros”, sublinha a manchete do Estadão.

Em sua reportagem principal, O Globo destaca que as recentes declarações de Guedes só acrescentaram tensão a fatores que já levaram a moeda americana a acumular alta de 5,7% no mês, como a frustração com o megaleilão do pré-sal, a turbulência política na América do Sul e a perspectiva de não haver mais cortes nos juros nos EUA.

Uma outra preocupação dos economistas ouvidos pelo Globo é o fato de Guedes ter sinalizado para a diminuição do ritmo das reformas a serem propostas pelo governo Jair Bolsonaro ao Congresso, por receio de protestos de ruas.

Questionado sobre a fala de Guedes em relação ao dólar, o presidente Jair Bolsonaro se mostrou despreocupado com as possíveis consequências no mercado.

“Se ele [Guedes] falou, está falado. Sou o técnico de futebol, quem entra em campo são os 22 ministros. O Paulo Guedes está jogando na economia. Tem vantagens pró e contra o dólar a R$ 4,21”, disse Bolsonaro. “Fala de Guedes sobre câmbio leva dólar a recorde de R$ 4,24”, destaca a manchete do Globo.

AI-5

Em seu texto principal, a Folha de S.Paulo também atribui à alta histórica do dólar a outra parte da entrevista de Guedes, quando ele falou sobre o risco do país ter outro AI-5, Ato Institucional mais duro da ditadura militar (1964-1985), como represálias do governo a eventuais protestos contra as reformas.

Para economistas entrevistados pela Folha, as afirmações do ministro da Economia geram instabilidade no curto prazo e criam um cenário de risco institucional para investidores de longo prazo.

Segundo o matutino paulista, o mercado tem a avaliação de que a alta de 5% do dólar no mês pode impactar a inflação e já projeta que não haverá novos cortes na taxa básica de juros, a Selic, em 2020. “Fala de Guedes sobre dólar e AI-5 provoca instabilidade”, informa o título principal da Folha.

Prisão em segunda instância

O Globo ainda ressalta, em sua primeira página, que líderes partidários decidiram, nesta terça-feira (26), dar prioridade à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Câmara sobre prisão imediata de condenados em segunda instância, em detrimento do projeto de lei sobre o mesmo assunto em tramitação no Senado. A mudança no legislativo pode alterar o entendimento recém firmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O acordo, segundo o matutino carioca, foi costurado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-RJ) e contou com o apoio do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Na prática, segundo o Globo, qualquer decisão sobre o tema no Congresso só será tomada em 2020, já que o rito para a aprovação de uma PEC é mais demorado do que o de um projeto lei.