Principal base da Funai para proteção de índios isolados sofre oitavo ataque em 12 meses

A base de vigilância do Ituí, principal posto da Fundação Nacional do Índio (Funai) para proteção de índios isolados do país, sofreu o oitavo ataque de caçadores no período de um ano. O novo atentado ocorreu na madrugada deste domingo (3).

A base atacada fica na foz do rio Ituí, dentro da terra indígena (TI) Vale do Javari, localizada no oeste do estado do Amazonas. A terra tem fronteira com o Peru, ao fim de uma área de 8,5 milhões de hectares. É a segunda maior terra indígena demarcada do Brasil, atrás apenas da Yanomami, que possui 9,6 milhões de hectares de extensão.

A nova ofensiva à base de Ituí ocorreu por volta das 2 da manhã deste domingo (3). Foram cinco tiros na direção do farol da Funai, que havia sido ligado junto com o alarme no momento em que servidores avistaram os caçadores descendo o rio. O número de tiros, contudo, foi menor do que no ataque ocorrido na noite da última quinta (31).

O blog entrou em contato com a Funai, que confirmou o novo ataque ocorrido neste domingo.

“A Funai confirma que no na madrugada de sábado para domingo (2-3/11) houve novo ataque à Base de Proteção Etnoambiental do Rio Ituí/Itacoaí, que fica na Terra Indígena do Vale do Javari. É o segundo ataque essa semana”, diz em nota.

A fundação afirma que já procurou apoio da polícia para a investigação do caso e o reforço na proteção da base. Leia integra da nota ao final desta reportagem.

Modus Operandi

O modus operandi, segundo indígenas, é o mesmo dos demais atentados: um grupo de caçadores entra na terra indígena para caçar e pescar por dias e, quando acumulam uma boa quantidade de animais abatidos, tentam deixar a floresta. É nesse momento que a base da Funai reage, na tentativa de frear a ação dos criminosos, e os confrontos surgem.

“A falta de providências concretas dos setores competentes só contribui para esse cenário. Mesmo com as repercussões não há, de fato, nada de concreto”, afirma Beto Marubo, da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).

De acordo com o indígena, caçadores, pescadores e contrabandistas têm saqueado a terra indígena. Marubo explica que eles usam a escuridão da noite para transportar toneladas de alimentos, carne de caça e de pesca extraídas de forma predatória, já salgados para evitar a deterioração.

Segundo Marubo, esse tipo de situação se banalizou na base do Ituí. Trata-se do oitavo ataque à base do rio Ituí em um ano e o quarto em 2019. Para ele, a situação é de “total descaso das autoridades competentes”.

“Pedimos, mais uma vez, que as providências sejam tomadas de forma enérgica e urgente para não acontecer incidentes mais graves. Da forma que está a base não oferece mais segurança para ninguém, nem para a Funai, nem para indígenas”, diz Beto Marubo.

“Qualquer situação que aconteça ali com a vida dos nossos parentes, nós iremos responsabilizar o Estado Brasileiro pela procrastinação dessa situação sem que seja tomada nenhuma providência concreta”, completa o indígena.

Índios Isolados

A base de Ituí é uma das quatro da Funai que compõem a proteção dos principais rios de acesso à terra indígena do Vale do Javari.

Servidores da Funai consideram a base de Ituí como fundamental para a proteção da terra indígena, que concentra o maior número de povos indígenas isolados do mundo.

Dos 28 registros confirmados de índios isolados no país, 10 deles estão no Vale do Javari. Por isso, a base é definida por especialistas como a mais importante de índios isolados do Brasil. É também a maior delas e das mais antigas.

Em março deste ano, o blog revelou detalhes da maior expedição dos últimos 20 anos, que teve o objetivo de fazer contato com um grupo de índios isolados do Vale do Javari. A base de Ituí foi o ponto de partida e continua sendo usada para os contatos com esse povo da etnia Korubo.

O que diz a Funai

Leia a íntegra da nota enviada pela fundação:

A Funai confirma que no na madrugada de sábado para domingo (2-3/11) houve novo ataque à Base de Proteção Etnoambiental do Rio Ituí/Itacoaí, que fica na Terra Indígena do Vale do Javari. É o segundo ataque essa semana. O primeiro ocorreu na noite de quinta-feira e a Funai já procurou apoio da polícia na investigação do caso e reforço na proteção da base. Neste período, a atuação na Base de Proteção tem como fator crítico a cheia do Rio Ituí, que está mais cheio e, portanto, mais navegável.